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Trajetória

Tenente-Coronel Veterana da Polícia Militar de Santa Catarina, Edenice da Cruz Fraga construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo, pela educação, pela literatura e pela dedicação à cultura. Sua história reúne a experiência da oficial policial-militar, da professora, da escritora, da poetisa, da declamadora e da dirigente acadêmica, dimensões que convergem em uma vida dedicada ao conhecimento e à valorização humana.

Nascida em Florianópolis, em 3 de maio de 1967, é filha do Subtenente da PMSC Valmir Fraga e de Vilma Pereira Fraga. Cresceu em uma família numerosa, no Morro do Mocotó, e encontrou na educação um dos caminhos fundamentais para a construção de sua trajetória pessoal e profissional. Antes mesmo de ingressar na carreira militar, estudou Biologia na Universidade Federal de Santa Catarina e exerceu o magistério, lecionando Ciências e Biologia.

Em 1988, ao ingressar no Curso de Formação de Oficiais Feminino da Polícia Militar de Santa Catarina, iniciou uma trajetória que adquiriria significado histórico. Edenice tornou-se a primeira mulher negra a ingressar na carreira do oficialato da PMSC, abrindo caminhos em uma instituição e em uma época nas quais a presença feminina no oficialato ainda dava seus primeiros passos.

Sua história profissional seria construída, desde então, pela superação de fronteiras e pela conquista de espaços de responsabilidade e liderança.

 

Pioneirismo na vida policial-militar

Ao longo da carreira, Edenice da Cruz Fraga exerceu diferentes funções na Polícia Militar de Santa Catarina, conciliando as exigências próprias da atividade policial com sua vocação para a educação e a formação profissional.

Sua trajetória alcançou funções de comando e direção, tornando-se referência da presença feminina na Corporação. Entre os registros de sua carreira encontram-se experiências relacionadas ao subcomando e ao exercício de funções de comando de unidade na Grande Florianópolis, além da atuação na área de ensino policial-militar.

Sua formação acadêmica acompanhou esse percurso. Além da formação de oficiais, realizou estudos voltados à Gestão Pública e ao atendimento de crianças e adolescentes em situação de risco, áreas que dialogam diretamente com as responsabilidades sociais da atividade policial.

Ao alcançar o posto de Tenente-Coronel, consolidou uma carreira construída em um período de profundas transformações na participação das mulheres nas instituições militares estaduais.

Transferida para a Reserva Remunerada em 2016, não encerrou, contudo, sua presença na vida pública, intelectual e cultural.

A farda deixaria de constituir sua atividade cotidiana, mas outra dimensão que sempre estivera presente em sua vida ganharia ainda maior expressão: a palavra.

 

A educação como caminho

A educação ocupa lugar especial na trajetória de Edenice.

Antes da carreira policial-militar, esteve na sala de aula. Durante sua vida profissional, retornou ao universo educacional pela formação e pelo ensino. Posteriormente, encontrou nas Academias de Letras outro ambiente para compartilhar experiências e produzir conhecimento.

Essa relação permite compreender sua trajetória para além do pioneirismo representado pelo ingresso de uma mulher negra no oficialato da Polícia Militar catarinense.

Sua história demonstra também a capacidade transformadora da educação.

O conhecimento lhe possibilitou atravessar diferentes espaços sociais e profissionais e, mais tarde, transformar a própria experiência em matéria de reflexão, literatura e memória.

É justamente nesse encontro entre experiência vivida e palavra escrita que emerge outra dimensão fundamental de sua trajetória.

 

A escritora, poetisa e declamadora

A literatura acompanha Edenice desde a juventude.

Primeiro veio o contato com a poesia e a declamação. Posteriormente, a escrita tornou-se uma forma própria de expressão, permitindo-lhe transformar experiências, inquietações, memórias e observações da sociedade em poemas, pensamentos, contos e narrativas.

Sua produção literária inclui obras como Pássaro Sublime, Poesias e Pensamentos, Traços de Antonieta, Poesias e Contos e Eu conto com um conto: A História do Escravizado no Brasil.

Os próprios títulos revelam alguns dos caminhos percorridos por sua escrita.

Há espaço para a poesia e a contemplação, mas também para a memória, a história, as questões sociais e a valorização de personagens e experiências relacionadas à presença negra na formação da sociedade brasileira.

Sua produção ultrapassa, portanto, a escrita memorialística de uma militar veterana. Edenice utiliza a literatura também como instrumento de reflexão sobre identidade, pertencimento e memória.

 

Traços de Antonieta

Entre suas produções, Traços de Antonieta possui significado particular.

A obra estabelece um diálogo literário e memorial com Antonieta de Barros, educadora, jornalista, escritora e personagem fundamental da história catarinense.

Ao aproximar sua escrita da memória de Antonieta, Edenice participa de um processo maior de recuperação e valorização de trajetórias que ajudaram a transformar a sociedade catarinense.

Poemas e contos tornam-se, nesse contexto, instrumentos de preservação da memória.

Essa característica aproxima profundamente sua produção dos fundamentos de uma Academia de Letras: escrever não apenas para registrar o presente, mas também para impedir que experiências, personagens e acontecimentos relevantes sejam apagados pelo tempo.

 

A vida acadêmica

A experiência literária conduziu Edenice naturalmente ao ambiente acadêmico.

Na Academia de Letras dos Militares Estaduais de Santa Catarina, ALMESC, encontrou um espaço no qual duas dimensões fundamentais de sua trajetória puderam se reencontrar: a experiência policial-militar e a produção cultural.

Como Acadêmica da ALMESC, passou a integrar uma instituição concebida para reunir militares estaduais dedicados às letras, à história, à pesquisa e à preservação da memória institucional.

Posteriormente, assumiu a Presidência da ALMESC, dando continuidade a uma história acadêmica iniciada em Santa Catarina e que desempenharia papel relevante no surgimento de outras Academias de militares estaduais no Brasil.

Sua atuação não se restringiu aos limites territoriais catarinenses. A participação em atividades literárias e acadêmicas, bem como o relacionamento com instituições congêneres, inseriu Edenice no movimento de intercâmbio que progressivamente aproximou escritores, pesquisadores e Academias militares de diferentes regiões brasileiras.

 

Santa Catarina e Paraíba unidas pelas letras

Foi nesse contexto que sua trajetória encontrou a Academia de Letras dos Militares Estaduais da Paraíba.

Em 18 de novembro de 2022, quando exercia a Presidência da Academia de Letras dos Militares Estaduais de Santa Catarina, Edenice da Cruz Fraga tomou posse como Membro de Honra da ALMEP.

A circunstância histórica em que ocorreu a homenagem amplia seu significado.

A ALMEP não recebia apenas uma escritora ou uma oficial veterana da Polícia Militar de Santa Catarina. Recebia também a Presidente de uma Academia irmã, cuja história está diretamente relacionada ao desenvolvimento do movimento acadêmico dos militares estaduais brasileiros.

A distinção representava, dessa maneira, um reconhecimento à sua trajetória pessoal e, simultaneamente, um gesto de aproximação entre a ALMEP e a ALMESC.

Santa Catarina e Paraíba encontravam nas letras um espaço comum.

Uma história que também abriu caminhos

Há uma dimensão da trajetória de Edenice que merece ser preservada para as futuras gerações.

Ser a primeira mulher negra a ingressar no oficialato da Polícia Militar de Santa Catarina significa ter ocupado um espaço no qual outras mulheres ainda não haviam chegado.

Esse pioneirismo, entretanto, ganha maior significado quando observado em conjunto com tudo aquilo que veio posteriormente.

Edenice não permaneceu definida apenas pelo fato de ter sido a primeira.

Construiu uma carreira. Exerceu funções de responsabilidade. Dedicou-se à educação. Produziu literatura. Participou da vida cultural. Integrou instituições acadêmicas. Presidiu uma Academia de Letras.

Assim, aquilo que começou como pioneirismo transformou-se em trajetória e legado.

Sua história demonstra que abrir caminhos possui verdadeiro significado quando esses caminhos permanecem acessíveis àqueles que vêm depois.

 

Membro de Honra da ALMEP

Ao conceder à Tenente-Coronel Edenice da Cruz Fraga o título de Membro de Honra, a Academia de Letras dos Militares Estaduais da Paraíba reconheceu uma trajetória na qual serviço, educação, pioneirismo, literatura e vida acadêmica se encontram.

A homenagem, concedida quando Edenice exercia a Presidência da ALMESC, revestiu-se também de significado institucional. Por intermédio dela, estreitavam-se os vínculos entre duas Academias comprometidas com a preservação da memória, com a valorização da cultura e com o reconhecimento da produção intelectual dos militares estaduais.

Sua presença entre os Membros de Honra da ALMEP registra, portanto, mais que uma distinção honorífica. Registra o encontro entre trajetórias e instituições que compreenderam que a memória precisa ser preservada, que a experiência precisa ser transmitida e que a literatura possui a extraordinária capacidade de aproximar pessoas, gerações e lugares.

Reconhecer Edenice da Cruz Fraga é reconhecer uma mulher que fez do pioneirismo um caminho, da educação uma força transformadora, da literatura uma expressão de memória e da vida acadêmica um espaço de aproximação e construção de legado.

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