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Maria Quitéria


A mulher que empunhou a liberdade como espada e vestiu a pátria como farda.

Há histórias que o tempo insiste esconder sob o pó dos arquivos e o silêncio das bibliotecas. Mas, de vez em quando, como uma flor que nasce no asfalto, ela desabrocha.

Maria Quitéria de Jesus é dona de uma dessas histórias.


Filha da Bahia, nascida em 27 de julho de 1792, em São José das Itapororocas — atual Feira de Santana. Veio ao mundo com um destino que nem ela, nem o Brasil poderiam adivinhar. Criada entre plantações, madrastas e mandos patriarcais — era para ter sido apenas mais uma mulher do seu tempo. Uma moça que bordava, que costurava e que obedecia em silêncio às vontades alheias. Mas Quitéria não era de fio e agulha. Era de pólvora e aço.


Montava a cavalo como poucos homens. Atirava com precisão de caçadora. E quando o Brasil — ainda adolescente, recém-saído da tutela de Portugal — precisou de braços, ela ofereceu os seus.

Sem permissão do pai, cortou os cabelos, vestiu-se como homem, escondeu o nome de batismo e, sob a identidade de "soldado Medeiros", alistou-se nas tropas que lutavam pela Independência na Bahia. O uniforme apertava, o disfarce era frágil, mas a vontade de lutar era inquebrantável.


Na Ilha de Maré, em Itapuã, nas trincheiras de terra e medo, Quitéria se fez lenda antes mesmo que o Brasil soubesse o que era ter heroínas.


Quando a farsa da identidade caiu, o comandante teve que escolher: punir ou reconhecer. Optou pelo segundo. Como poderia dispensar uma mulher que enfrentava o inimigo com mais bravura que muito homem fardado? Quitéria trocou as calças por uma saia militar — um improviso que hoje soa quase como metáfora: feminina, mas invencível.


Liderou um grupo de mulheres na defesa da foz do Paraguaçu. Recebeu promoção. Foi elogiada em ordens do dia. Capturou inimigos. Marchou. Sofreu. Venceu.


E como se a guerra não bastasse, ainda teve forças para desafiar outro império: o das convenções sociais.

Viajou ao Rio de Janeiro para ser recebida pelo Imperador Dom Pedro I, que, diante dela, fez o que a História lhe devia: a condecorou com a Ordem Imperial do Cruzeiro, a maior honraria militar da época, e a promoveu a Alferes de Linha, tornando-se assim a primeira oficial mulher do Exército Brasileiro.


Depois, voltou para casa. Casou-se, teve uma filha, viveu com a dignidade possível, apesar das adversidades. Enfrentou a viuvez, a cegueira, a doença. Morreu pobre, mas com o espírito de quem soube que não passou em branco pela vida.


Décadas se passaram.


E o que antes era esquecimento virou reconhecimento. Estátuas, medalhas, livros, aulas de história... Hoje, seu nome repousa no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, no Panteão em Brasília.

Neste ano, em que se completam 233 anos de seu nascimento, a Academia de Letras dos Militares Estaduais da Paraíba (ALMEP) presta sua homenagem. Não apenas à combatente, à estrategista, à mulher de farda... mas à menina que ousou dizer “sim” ao chamado da liberdade quando muitos diziam “não”.


Quitéria é mais que um nome em pedra ou medalha. É verbo em movimento. É lembrança viva de que a coragem não tem gênero e que, às vezes, os maiores heróis do Brasil nasceram sem nunca ter sido chamados de heróis em vida.

Que sua história continue marchando entre nós — não como um eco do passado, mas como uma soldada eterna da liberdade.


Homenagem da Academia de Letras dos Militares Estaduais da Paraíba (ALMEP)

Em reconhecimento à bravura, à história e ao exemplo perene de Maria Quitéria de Jesus — símbolo da luta, da coragem e da superação.

Dedicamos esta homenagem ao povo paraibano, em nome de todas as mulheres que desafiaram os limites de seu tempo com coragem e honra. Que Maria Quitéria inspire, com sua memória, as gerações de hoje e de amanhã.


 
 
 

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