O Major que nasceu em Batalhão
- ALMEP Paraíba'
- 6 de ago. de 2025
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por Walber Rufino, ALMEP, 6 de agosto de 2025
“Quem nasce em Batalhão, não teme marcha dura nem estrada sem mapa.”

A manhã ainda bocejava sobre o Cariri quando, no dia 6 de agosto de 1883, o sertão amanheceu com um novo nome escrito na palma da terra.
Irineu.
Irineu Rangel de Farias.
Nasceu sem pompa, sem clarins. Não houve anúncio de corneta nem berço de ouro.
Mas a geografia do destino, sempre generosa com os atentos, lhe deu como morada um lugar com nome de vocação: Batalhão. Hoje, Taperoá.
Naquela época, apenas chão batido e horizonte largo.
Dizem que há silêncios que conversam com o futuro.
E talvez, ali, entre o calor do colo materno e o cheiro da terra recém-amanhecida, alguém já soubesse: “Esse vai ser soldado.”
E foi.
Mas não desses de espada em punho apenas. Foi soldado de uma causa maior: o dever.
Foi soldado da ordem. Da coragem.
Do povo.
Tinha 22 anos quando escolheu a farda.
Tarde, diriam alguns.
Mas havia nele um tempo próprio. Um compasso interno, desses que não apressam o passo, apenas o tornam certeiro.
Começou na base.
Anspeçada. Cabo. Sargento.
E foi subindo, não porque queria mandar, mas porque sabia servir.
Subia com o peso da própria história nos ombros e a leveza da honra no olhar.
Era tempo em que a patente se conquistava com suor, e não com favores.
Com exemplo, não com títulos.
Irineu compreendia isso com a profundidade de quem vê o mundo pelos olhos de quem caminha a pé.
Foi delegado, foi comandante de patrulha.
E no sertão, onde o mato não perdoa e o cangaço era lei paralela, ele virou lenda.
Sabia de cor os atalhos do mato e os atalhos da alma dos homens.
Quando o tiroteio começava, sua voz — firme, mas nunca áspera — mantinha a tropa unida.
Não gritava.
Comandava com o silêncio de quem inspira.
Foi ferido. Reformado.
Mas quando o sertão pediu socorro, ele voltou.
Comandou em 1926, o 2º Batalhão da PM de Patos.
Defendeu a cidade da Coluna Prestes.
Em 1930, comandou o Batalhão Provisório durante a Revolta de Princesa.
E seguiu — como sempre — marchando ao lado da legalidade, e não do poder.
Depois da pólvora, a caneta.
Depois da tropa, o povo civil.
Foi prefeito de Teixeira, depois, de Taperoá, sua terra natal.
Em João Pessoa, diretor da Penitenciária Modelo, onde tentou ensinar que firmeza e dignidade podem caminhar juntas.
Em 1965, aos 83 anos, já com cabelos brancos e um mundo vivido dentro do peito, o Estado lhe prestou a continência que lhe era devida: o promoveu a Major.
O tempo, finalmente, lhe condecorava.
Oito anos mais tarde, em 1973, a Medalha Vidal de Negreiros lhe brilhou no peito — não como adorno, mas como espelho de sua travessia.
Ariano Suassuna, que não era de elogios fáceis, o descreveu como “um homem bravo, de fala grave e descansada.”
E Ariano, como sabemos, enxergava fundo.
O Major PM Irineu Rangel de Farias faleceu em 24 de agosto de 1977, aos 94 anos de idade.
Curiosamente, ele partiu justamente no mês em que se comemora o Dia do Soldado (25 de agosto), o que reforça, poeticamente, a imagem de um homem que viveu — e partiu — como militar em essência.
Hoje, Irineu Rangel é patrono da cadeira nº 11 da ALMEP.
E essa cadeira não está apenas ocupada — está viva.
É nela que repousam os ecos de sua história, guardados com afeto pelo Coronel Ambrósio Agrícola Nunes, também Juiz, também homem de palavra e honra.
Ele mesmo nos lembra:
“Porque quem escreve com bravura no sertão, inscreve-se na eternidade.”
Hoje, ao se completarem 142 anos de seu nascimento, Irineu Rangel não é saudade.
É presença.
Presença na ética.
Na disciplina.
No exemplo.
E nós, que seguimos a marcha da vida em terreno por vezes pedregoso, aprendemos com ele:
Há quem comande pela farda.
E há quem lidere pela alma.
Irineu foi dos segundos.
E sua história — feita de silêncio, poeira, coragem e ternura — ainda nos atravessa.



Muito interessante a história desse guerreiro